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domingo, 25 de março de 2012

Um Adjetivo para FINA ESTAMPA

Título de novela mostra que, quando se produz um texto, há sempre a preocupação com a escolha e a posição das palavras

 

Fina Estampa

Nos bancos escolares, os mestres nos ensinam a propor um título em toda produção de texto, escolhendo palavras-chave que aludam ao texto ou resumam o teor desenvolvido. E percebemos que os escritores denotam essa preocupação com os títulos de seus textos - quer jornalísticos, quer literários, quer sejam decisão de editores de revistas ou de autores e produtores ao nomear as novelas para a televisão.

 

Na TV, esse trabalho se faz com meses de antecedência e em decisão coletiva, antes de o programa ir ao ar. Normalmente, o título, genérico, traz uma palavra (Felicidade, Celebridades) ou um sintagma nominal (frase nominal) composto de um substantivo e um adjetivo (Anjo Mau, Fera Ferida, Fina Estampa), ou um substantivo e uma locução adjetiva (A vida da gente, Páginas da vida, O dono do mundo, Caminho das Índias, Negócio da China e tantos outros). As minisséries seguem a mesma sequência do sintagma nominal: Anos Dourados, Avenida Paulista, Riacho Doce, Dercy de Verdade e outras.

POSIÇÃO

Um título deve, por óbvio, sintetizar o assunto do texto, mostrando o que é relevante. E isso pode ser feito usando adjetivos ou locuções adjetivas para melhor caracterização e, se possível, intrigar o leitor com jogos de palavras ou polissemias.

Bons escritores capricham ao escolher títulos de suas obras, privilegiando aspectos morfofonológicos (a escolha de vocábulos com fonemas específicos, criativos) e critérios sintático (relação entre palavras) e semântico (significação).

 

Tomemos o título do livro de Lima Barreto: Triste Fim de Policarpo Quaresma, em que o adjetivo anteposto não expressa um fim qualquer, mas um final inesperado para a personagem; e a novela de Jorge Amado: A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, em que a repetição do substantivo "morte" representa uma duplicidade fundamental no desenvolvimento do enredo.

 

EXAME

A anteposição ou posposição de adjetivos aos substantivos implica mudança de significado. É conhecida nas escolas a frase:

"Rui Barbosa foi um grande homem, mas não um homem grande".

A anteposição do adjetivo "grande" expressa o significado de escritor famoso, erudito; a posposição dele indica a estatura do homem, pois ele media um metro e meio.

 

A significação é alterada, como com o adjetivo bom/boa, em "bom professor" (competente) x "professor bom" (bondoso) e "boa mulher" (bondosa) x "mulher boa" (atraente) - esta se tornou bordão no humorístico Zorra Total, com Maria Clara Gueiros: "Ô mulher boa!".

 

O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), que trabalha com competências e habilidades, apresenta questões reflexivas para os graduandos de Letras. Em 2002, numa questão discursiva, cobrou-se este conteúdo:

"'Budista' e 'japonês' são palavras que podem ser categorizadas como substantivos e como adjetivos, o que é comprovável em sintagmas como o 'japonês budista' e o 'budista japonês'. Considerando apenas três possíveis critérios de classificação morfológica - o formal (ou flexional), o semântico e o sintático -, aponte o critério mais decisivo para determinar a classe gramatical desse tipo de palavras, justificando por que você escolheu e excluiu os demais."

 

MORFOSSINTAXE

Tomando-se por base a morfossintaxe, no primeiro sintagma temos o substantivo "japonês" e o adjetivo "budista", ambos flexionando-se em gênero (masculino) e número (singular); no segundo sintagma há uma inversão, com o substantivo "budista" e o adjetivo "japonês" com as mesmas flexões.

 

Semanticamente, temos, no primeiro, um homem de origem japonesa que segue a religião budista; no segundo caso, há o significado de um homem que optou pelo budismo e é de origem japonesa. Portanto, considerando a posição do substantivo e do adjetivo ou vice-versa, e suas flexões, o critério mais decisivo para determinar a classe gramatical é o morfossintático.

 

FINA ESTAMPA

Já o título da novela da rede Globo, que terminou agora há pouco, é formado pelo adjetivo anteposto "fina" e pelo substantivo "estampa", formando, assim, um sintagma nominal. Denotativamente, "estampa" significa "uma figura impressa em papel, tecido, couro, etc.". Já o adjetivo anteposto "fina" significa "afiada, superior, que tem vivacidade". Posposto fosse (estampa fina), o adjetivo indicaria "delicada, elegante, excelente". Há o sentido figurado de "perfeição", "beleza", "aparência física". É a metáfora que o autor usa para englobar as personagens principais: Tereza Cristina e Griselda. Aquela é rica, poderosa, com duplo nome; esta é de origem pobre, trabalhadora e traz nome simples e apelido masculinizado (Pereirão).

 

SENTIDOS

Aí está, então, a importância de encaixar o adjetivo anteposto na escolha do sintagma nominal; morfologicamente, há um sintagma nominal formado por adjetivo e substantivo, com a concordância flexional das palavras no feminino; e a semântica, com o sentido dos dois termos, em que se vislumbra uma ironia, pois por trás da fina estampa de Teresa Cristina há um real processo de loucura.

 

Essa dupla posição do adjetivo não ocorre em idiomas como o inglês, em que o adjetivo vem sempre anteposto ao substantivo. Lembra-nos o título do filme Pretty Woman, em que o adjetivo vem anteposto, sendo traduzido, literalmente, por Uma Linda Mulher (ou "mulher linda"), como o foi. Em português, enfim, é fundamental observar a posição do adjetivo (anteposto ou posposto), pois ela pode implicar uma mudança radical do significado.

 

Por Luiz Roberto Wagner e Djenane Sichieri Wagner Cunha

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